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O Varal Julho 22, 2008

Posted by Andreza in literatura, pessoal.
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Eu comprei um varal. Não qualquer varal de um real que se prende em preguinhos na parede do quintal. Comprei um varal de chão. Desses que se parecem com uma mesa dobrável, paguei caro, porém me serve com um extra de um denguinho sem pretensões. Finalmente eu tenho um varal!

Na última semana eu passei os dias contando as roupas que ainda estavam limpas, na dúvida, rezava para fazer sol no domingo, pois era o dia que eu iria lavar as roupas. A essa hora você deve se perguntar que tipo de pessoa não tem um varal. Pois bem, eu não tinha. Eu mal tinha um cantinho só meu, quando arranjei um, não tinha varanda ou área de serviço. E como fazer para estender as roupas? No banheiro não dava, mal tinha espaço pro vapor d’agua do banho sair. No quarto e na sala não tinha ventilação o suficiente e o piso era de madeira, corria o risco com a umidade de fazer o taco se descolar do cimento. Sobrava a cozinha. E como lá não tinha como furar as paredes, eu resolvi comprar um varal de chão.

Acho que as pessoas que possuem um varal são detentoras de vida e amor genuíno. Pois elas tomam com carinho e cuidado todo o processo de lavar, secar e passar sua própria roupa, semana após semana, faça chuva ou faça sol. Talvez um orgulho bobo, mas é impressionante como esse processo traz vida ao cotidiano. Pessoas que possuem um varal sabem como é especial cada fiapinho de roupa, cada manchinha extra e principalmente qual o valor de cada gota de suor da labuta diária. Pessoas que possuem um varal conhecem a vida como ela é. Sem terceirização de fluídos corporais. Sem prostituição da responsabilidade de se manter limpo, cheirosinho e decente. É simples assim, pessoas que possuem um varal enxergam a vida de forma diferente.

A Placa Julho 16, 2008

Posted by Andreza in literatura.
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Eu sinceramente não tenho nenhum autor contemporâneo predileto. Mas, ando lendo alguns que me chamaram a atenção. Talvez pq eu esteja acompanhando todo esse movimento de cultura periféria, com artistas que realizaram a semana de arte moderna da periferia e tal, de qualquer forma, no meio que chamamos de mainstream não há ninguém que eu tenha visto até hoje que eu possa qualificar como interessante. A auto-ajuda, o falso pós-modernismo gagá e sem pernas, é assim que vejo as publicações literárias atuais. Sinceramente não me interesso pelas putinhas ricas, pelas putinhas de shopping ou pelas putinhas de capas de revista masculina. Me interesso mais pelos filhos da puta (no bom sentido) que escrevem o que sentem, sem meias palavras ou receios dantescos. E é assim que eu vejo poucos, mas bons escritores surgindo. Sinceramente? Vá a merda Lolita Pille! Se Veronica decidiu morrer, que morra, de preferência com uma boa picada de escorpião.

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(pronto, desabafei!)

Agora, recebi este texto e me apaixonei por ele. Aos poucos estou escolhendo a dedo os que eu mais gostei ultimamente para dividir com vocês. Este conto é do escritor Rodrigo Ciríaco, publicado no livro “Te Pego Lá Fora” das Edições Toró, São Paulo, 2008.

informações ou aquisição: rodrigociriaco@yahoo.com.br

www.efeito-colateral.blogspot.com

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A PLACA

A minha aluna virou uma Placa. Há três meses ela deixou de vir à escola por isso: virou uma Placa. E não uma placa qualquer, de trânsito, que ninguém respeita. Ela virou uma Placa publicitária. Agora tem uniforme, endereço e identidade. Não fica mais à margem. Fica na porta dos shoppings, concessionárias e futuros edifícios, se auto-promovendo: A Placa. Com pernas.

A minha aluna virou uma Placa. Ela diz sentir muito orgulho da empresa em que trabalha. Construtora. Grande. Bem conceituada. Vende casas de alto padrão, para pessoas de bem, alto poder aquisitivo. Luxo. Seus condomínios têm quadra de tênis, piscinas, bancos; centro de compras particular, segurança e conforto. Diz que a tendência do futuro são os ricos não saírem mais de suas caixas, seus bunkers. Para eles tudo será Prime, Van Gogh. Personalité.

A minha aluna virou uma Placa. Aconteceu na porta da escola. Um homem parou o carro de importado, abaixou o vidro e disse: – Você leva jeito para Placa. Um cara branco, alto, malhado; peito raspado, gel e gravata. Big boss. Ele não perguntou idade, se tinha experiência ou carteira registrada. Pediu apenas para tirar o óculos, soltar o cabelo. Pronto. Bonita. Está contratada.

A minha aluna virou uma Placa. Ela diz que trabalha numa empresa ética, séria. Não registram, mas pagam todos os impostos. Todo final do dia ela recebe o seu salário. E vai embora pra casa. A empresa só fez uma exigência: que deixasse a escola. Questão de escolha. O trabalho é das nove da manhã as sete da noite. Segunda a domingo. E sempre há um novo bico. Setor imobiliário em expansão. As propostas estão em expansão. Eles precisam de Placas. Ela já é uma Placa. Quem precisa de estudo?

A minha aluna virou uma Placa. Outro dia, pura sorte, eu a encontrei. Andando sozinha, pela noite, voltava do serviço. Descaracterizada. Não parecia ser a menina frágil dá sexta série que até outro dia eu conheci. A menina tímida que sonhava em ser modelo, e só estudava.  Falei: – E aí? Você precisa voltar pra escola. Ela respondeu, em tom de deboche: Eu não! Já tinha uma profissão. Tinha seu próprio dinheiro, ajudava a mãe em casa. Responsável, não precisava mais de conselhos, não precisava de mais ninguém. Só do big boss, o chefinho. Aquele que lhe deu valor. Deu emprego, deu presentes, prometeu castelos. O único que não lhe fez se sentir mais como uma qualquer. A transformou numa Placa.

Uma Placa-viva.

Com amor, Mona Março 18, 2007

Posted by Andreza in literatura.
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Eu conheço bem as ruas da cidade. Já andei por muitos lugares. Nunca encontrei um lugar em que realmente pudesse me sentir em casa. Aliás, eu tinha uma casa, o mais próximo do que se pode chamar de lar. Mona cuidava de mim. Não era bonita, mas satisfazia bem as minhas necessidades. Costumava acordar cedo e ela pegava o jornal para mim. Limpava, cozinhava, fazia o almoço, assistia à televisão, e vez ou outra saía para o salão de beleza. No fundo eu acho que ela jamais seria linda, e mesmo assim mantinha sempre as mãos bem cuidadas. Acho que ela considerava as mãos a única parte do corpo sexy; por isso sempre as mantinha impecáveis.

Um dia eu me cansei. Saí de casa. Não sei se Mona chorou por minha causa. Ela sabia que nossa relação não era eterna. Tínhamos uma bela diferença de idade. Trinta anos. Eu ainda era jovem, precisava viver um pouco. Não podia passar o resto da minha existência preso em uma vida medíocre como aquela.

Em um certo momento, confesso, pensei em voltar. E voltei. Encontrei Mona saindo de um café com um sujeitozinho magrelo e sem graça. Percebi que nunca mais teria o coração dela. Dei meia volta e fui embora, ela não me viu. Se viu, não tentou falar comigo. Não saí particularmente magoado. Apenas frustrado. Foram dois anos morando na mesma casa. Paixão à primeira vista. Ela cuidava de mim como se cuida de uma jóia. Mas de qualquer forma e não sei por qual razão eu não queria mais ser apenas um desfrute daquela mulher. Dava o que ela queria e ela cuidava de mim. Nada mais. Nada menos. Partilhávamos coisas lindas. Passeios singelos no parque, andávamos quarteirões em volta de nossa casa, íamos sempre juntos nas feiras de artesanato que ela sempre gostava. Frustrado porque achei que ela não me substituiria tão rápido. Apenas isso que eu senti. Se ainda assim, meus leitores, vocês acharem que sou um mau caráter, não posso fazer nada para que mudem de idéia.

Isso aconteceu há muito tempo. Estou velho. Tive filhos. Filhos que nunca me conheceram. Nem eu me lembro do rosto deles. Me disseram outro dia que um dos meus bebês já estava crescido. Morava numa bela casa em frente ao parque que sempre ia com Mona. Meu filho…Eddie. Esse era o nome dele. Ele sempre andava pra lá e pra cá com sua longa juba loira ao vento. Dizem as más línguas que ele era rebelde que nem o pai. Como eu…Pra ser sincero não me lembro da mãe dele. Apenas de uma única noite que estivemos juntos. Não importa mais…Dos outros filhos que tive nunca mais vi ou ouvi falar de nenhum deles.

Meus ossos doem como se fossem partes de nervos que são constantemente cutucados com um espeto. Virei um mendigo. Passo o dia revirando lixo em busca de comida. Algumas pessoas se compadecem e me dão o que comer. Não são raras essas pessoas gentis na minha vida. Ás vezes acho que meu único pecado e erro foi nunca ter dado o verdadeiro valor a essas pessoas. Sempre dispostas a ajudar sem pedir nada em troca. Mas já é tarde demais. Ano passado soube que Mona se casara. E ela ainda estava com o magricela sem graça que vi outro dia. Ela teve um filho. Ela tem uma família. Eu nunca cheguei a ter uma família. Meu pai morreu cedo e minha mãe era uma cadela sebenta. Me teve na rua e da mesma forma me abandonou. Sem pensar ou sentir. Se tive irmãos nunca soube.

Estou deitado na calçada juntando as lembranças que tenho dessa vida. Não me arrependo de muitas coisas. Mona. Ela é a única pessoa que me entristece. Tão carinhosa. Tão afetuosa. Ela tem o que sempre mereceu. Um lar. Nem isso eu tenho. E a única coisa que nunca pude dar a ela. Sofro um pouco com isso. Mas não muito. O caminhão de lixo passa pela minha frente arrancando os restos das vidas das pessoas. Bem que eles podiam levar essa dor. Estou cansado. Velho. Sujo. Feio. Estou pronto pra morrer. Lá vem outro caminhão. Quero dormir e nunca mais acordar. Só isso. Tudo isso.

O caminhão de gás passa e tenta desviar de mim. Não consegue. Morro, enfim, com o rabo entre as pernas.

Nota divulgada no jornal da manhã: Acidente com caminhão de gás fere motorista e causa incêndio. Não houve mortos ou feridos. A polícia acredita que o motorista tentou desviar de um cachorro de rua, mas não conseguiu. Foi achado a carcaça do animal e um pingente de ouro escrito: “com amor, Mona”.