Projeto Escrevivendo com Interface para Blogagem Maio 13, 2009
Posted by Andreza in Blogroll.Tags: autoria, casa das rosas, criação, cursos, literatura, máscaras, personagens, poesia
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Ontem eu comecei um curso chamado Projeto Escrevivendo com Interface para Blogagem “Máscaras, Rostos e Personas” no Espaço Haroldo de Campos, mais conhecido como Casa das Rosas. O curso custa apenas R$ 10,00 e tem duração de dois meses. Além de ser super em conta, fácil acesso (na avenida paulista), também possui um conteúdo estimulante. Observar e ser observado, e acima de tudo, criar e ser recriado pelas próprias mãos e visões de ser e de se ser.
Num primeiro momento de minha aulinha (sim, eu estou muito feliz em voltar a aprender alguma coisa em sala de aula) lemos alguns microcontos organizados pelo Marcelino Freire, e nesse exercício de imaginação, eu pude me libertar de uma monótona rotina de pensamentos, principalmente domésticos devido ao horário.
Enfim, um deles é da autora Adriana Falcão, perdi o nome do microconto, mas segue o conteúdo dele:
“Ali, deitava, divagou:
Se fosse eu, teria escolhido lírios”

O exercício era criar sobre esse texto, qualquer coisa. Pois bem, eis o que eu produzi:
Já sonolenta,
Fechou o livro cheirando a pó,
Cerrou os olhos
Ainda sem pressa
Olhou para dentro
Desprezou Salomão e toda a sua glória
E ali, deitada, divagou:
Se fosse eu,
Teria escolhido os lírios
Como se fosse complicado
Escolher ser simples.
Os ovos Abril 19, 2008
Posted by Andreza in literatura, pessoal.Tags: literatura
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Quando eu era pequena minha mãe fazia bolos de festa, naquela época não existia essa pasta americana, então tudo era feito com glacê e modelados com bonequinhos de plástico. Lembro de ficar no balcão da cozinha esperando ela terminar de bater a cobertura. Era costume meu, também, ajuda-la colocando a medida de açúcar na xícara ou quebrando com cuidado os ovos.
De vez em quando os ovos se quebravam e estavam podres. Mamãe me ensinou a separa-los em uma xícara antes de misturar com a massa. Nunca mais perdi outro ovo por causa disso. Outras vezes os ovos estavam bons, mas quando se separa a clara da gema, principalmente para fazer claras em neve, não se pode colocar nada da gema. Vez ou outra a gema ia junto e a mistura desandava. Aprendi então a separar nas mãos, hoje em dia já consigo separar na casquinha do próprio ovo sem quebrar a parte amarela.
Uma vez, no meu aniversário, ela prometeu fazer um bolo de princesa. Eu sonhava com esse bolo desde que o vi estampado nas revistas de boleiras. Enquanto ela misturava os ingredientes secos, eu fui pegar na dispensa uma caixa cheia de ovos para que ela pudesse fazer cabelinho de anjo. Na volta, eu virei o pé e caíram mais de quarenta ovos no chão. Chorei como quem está condenado à morte. Soluçava de dor e tristeza. Minha mãe me pegou no colo e me disse que eram apenas ovos. Nada mais. Então veio a raiva. Grande mentira essa! Não eram somente ovos! Eram os cabelinhos de anjo, levemente açucarados que iriam pra cima da bonequinha de olhos azuis! Ia ser uma princesinha num bolo com glacê cor de rosa! Como a princesinha ia ficar bonita se não teria cabelo dourado? Como meu bolo ficaria bonito sem os fiozinhos reluzentes em cima? Não dava! Pela primeira vez na vida eu senti que minha mãe mentia pra mim, senti o fracasso de querer algo e tudo se quebrar na frente dos olhos.
Agarrei-me na caixa que estava no chão. Olhei longamente para os ovos. Não sobrou nenhum. Comecei a brincar com os restos no chão junto com a terra. Achei que eu mesma faria um bolo sair daquela meleca. Comovida, minha mãe me puxou de lado, me deu um beijo na testa suja e aquilo me fez parar de chorar. Mas ainda me parecia impossível ter meu bolo de princesa novamente.
Minha mãe me levou pro banheiro, disse pra eu tomar um banho e trocar de roupa, disse que fresquinha eu pensaria melhor e a tristeza passaria. Tomo banhos várias vezes por dia por causa disso. Sempre à espera da dor ser lavada com a água. Quando saí do banho, vi que ela tinha separado uma roupa de renda rosa, igual ao vestido de festa dela. Vesti sem questionar. Achei que ela queria que eu me sentisse bonita pra não lembrar dos ovos.
Fui quietinha até a cozinha, de cabeça baixa e olhos no chão. Ela estava preparando algo que não sabia o que era. Me sentei no balcão perto da porta com os pés balançando pra evitar a monotonia. Não disse uma palavra. Ela me sugeriu ir brincar lá fora. Não quis, voltei para o sofá e dormi.
Acordei sonolenta de um descanso sem sonhos. Quando cheguei à cozinha não acreditei. Não, não era o bolo de princesa. Era um carrossel! Com cavalinhos brilhantes, geléia de morango e milhares de confeitos prateados. E o carrossel ainda girava! Tosca e lentamente, mas se movia. Era perfeito! Esqueci da princesa na hora e pensava somente em ter um pedaço daquele bolo. Minhas buchechas enormes não eram suficientes para o tamanho do meu sorriso. Não era pelo bolo perfeito. Nem era pelo sonho de ser princesa. Ali, naquele momento, eu tinha ambos. E foi por isso, por toda a tragédia daquele dia que eu aprendi que as voltas do carrossel são mais alegres que a estética estática. Foi aí que aprendi que para se ter um sonho realizado é preciso se moldar aos acontecimentos. É preciso quebrar os ovos pro mundo se mover.
O Vôo Abril 10, 2008
Posted by Andreza in Sem categoria.Tags: literatura
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O silêncio a tortura. Em uma manhã perfeitamente quente e azul, tudo está fora do lugar. São xícaras, pratos, roupas, sapatos, bolsas, cinzeiros e garrafas. A desordem remete ao que ela não vê por baixo das coisas. Como pássaros que ignoram as minhocas simplesmente por não terem fome. São levados pelo leve vento pra longe sem se importar em lembrar o caminho de volta depois.
A paz machuca. Tanta paz assim é sinal de trevas mais além. Como se trevas fosse o caminho lógico da serenidade. Para cima, para baixo. Sentimentos rodopiam leves pelo ar quente e úmido. Ela tenta se concentrar mais uma vez. Esforço em vão. Fecha os olhos rezando pro momento não durar mais do que o necessário. “Desta vez vai dar certo” ela pensa. Resmunga e tenta de novo. Caramba!!
Falhou miseravelmente. Como todas as vezes antes disso. Não sabe se está bem ou se vai conseguir melhorar depois. Sente o nó na garganta e desmonta no chão sem forças, com as mãos vermelhas, quase roxas sem sentir o sangue que se acumula nas palmas. Ali, parada, como criança sem conforto e filhote a respirar rapidamente na esperança de ser ouvido. Deixa-se levar pelo tempo. Maldito tempo que nos tranforma, mas jamais podemos retribuir.
Há alguns cortes em seus braços. Não foi de propósito. Foi lavando o banheiro. Há cortes no calcanhar. Sapatos novos. Há escoriações nas pernas. Freiada inconsequente do motorista de ônibus. De novo, para cima, para baixo. Pensamentos levados ao alto e transferidos para baixo. Ela é um passarinho aprendendo a voar. Aprendendo a ser levada pelo vento.
Por um momento ela pára. Respira o cheiro de desinfetante que a cozinha exala. Enjoa-se do cheiro e levanta-se. Pára novamente na pia. Refaz os movimentos. Visualiza novamente e com um último suspiro de coragem ela vai tentar novamente. É isso que faz dos fortes, fortes. O pássaro precisa se estatelar no chão pra alcançar vôo. Filhotes precisam ferir pra sobreviver. Essa é a evolução das espécies. Ela precisa evoluir. Ela precisa crescer.
Então de ímpeto ela chuta a solidão pra fora. Arranca com os olhos a tristeza do peito. Faz sumir o medo entre os dedos. Ela está pronta. Finalmente. Movimenta rapidamente os dedos e numa explosão de sentidos sem sentido algum ela tenta mais uma vez. Não pensa se falhar. Não se importa se não der certo. Apenas tenta com todas as forças que ela possui.
E num desses golpes do destino…ela consegue. Ali, o doce triunfo. Tudo se esvai como água entre as mãos. Ela se sente amortecida pela vida. Ah, a vida! Doce e memorável vida. Nos ares, sentindo a liberdade do céu. Finalmente ela venceu a dura batalha.
Ela coloca o vidro de azeitonas de lado e continua a seguir cuidadosamente a receita da vovó. Apetitosa torta de frango que tanto queria a semana toda. Bom que não atrasou o almoço. Bom que não atrasou a vida.